Denilson Daleffe, Nózio e Jacsson: juntos numa missão solidária
Por: Dilmercio Daleffe

Como a um filme, três histórias cruzadas, em dois continentes, revelaram como a vida é emoldurada por fascínio. E, por algumas poucas vezes, pela solidariedade

Três histórias cruzadas. Dois continentes. E somente um final.

NÓZIO

Nózio nasceu há 12 anos em uma comunidade de extrema pobreza de Moçambique, na África. Nasceu como uma criança saudável. Mas aos cinco, após uma queda, o menino perdeu o movimento dos dois pés. E isso mudou tudo. O pai abandonou a família. E, agora sozinha, a mãe acabou acolhendo um novo companheiro. Acontece que o tratamento do padrasto com Nózio era o pior possível. As noites, com a conivência da mãe, a criança não podia dormir sob o mesmo teto. E era obrigada a se deitar sobre um saco de arroz, daqueles de 25 quilos, na varanda da casa.

Para se locomover utilizava um pequeno pedaço de pau, como a uma bengala. Sem movimentos, os pés virados não tinham força para pisarem. O menino não tinha roupas descentes. Se vestia como a um trapo, com calça e camisetas rasgadas. E passava a maior parte do tempo sentado, se arrastando. Não podia tomar banhos regularmente. E era tratado como se mantivesse uma espécie de anomalia sem cura, como uma transmissão contagiosa. E por consequências da falta de compaixão da própria família, Nózio não teve uma infância digna como deveria.
Submetido a um tipo de invisibilidade, não estudou. A bem da verdade, oficialmente nem existia, simplesmente porque jamais teve um documento de identidade. Definitivamente, o menino foi abandonado, vivendo como a um fantasma.

JACSSON OFELIO

Jacsson Ofelio é um influenciador digital de Moçambique. Casado e com uma filha ainda pequena, em 2024 foi até o distrito de Ilê, em Moçambique fazer um trabalho social em busca de água. Mas quis o destino que conhecesse a história de Nózio. Ao vê-lo se locomover com um pedaço de pau improvisado, deixou a missão. E passou a se concentrar apenas no menino.

Naquele mesmo dia conversou com a mãe. Interrogou o padrasto. E buscou soluções para ajudar a criança. Com seu trabalho nas redes sociais expos o caso, angariando dinheiro a cirurgia de Nózio. Juntou a grana, mas ao chegar ao hospital soube que precisaria de mais.
Um ano depois, já em 2025, Jacsson obteve informações através de outras pessoas que no Brasil existia um médico que poderia colaborar com uma cirurgia ao menino.

DENILSON DALEFFE

Médico ortopedista, atuante na Santa Casa de Maringá, o mourãoense Denilson Daleffe foi contactado por Jacsson há quase dois anos. Foi informado do problema de Nózio e, desejando colaborar, aceitou o caso. Há duas semanas – janeiro de 2026 – o menino chegou ao Brasil na companhia de Jacsson. Ao chegar a Santa Casa foi submetido a exames e, logo em seguida, passou pela cirurgia.

COMO A UM FILME

Como a um filme três pessoas que, até 2024, não se conheciam, separadas por um oceano, tiveram as vidas cruzadas. E reflexo direto da solidariedade, emolduraram um final digno dos melhores roteiros de Holywood. Embora aqui nada seja ficção.

A realidade do menino estava lá, nua e crua. E diante dos olhos de todos os moradores da pequena comunidade de Ilê, nos fundões de Moçambique. Todos olhavam. Mas quem a viu foi Jacsson. “Eu poderia ter fechado os olhos e continuado minha jornada. Se assim fosse Nózio continuaria ali. Mas acontece que eu tenho uma pequena filha. E a coloquei no lugar de Nózio. Eu não poderia deixa-lo ali, sem nada fazer”, disse o influenciador.

Denilson Daleffe acredita que a deficiência de Nózio seja consequência direta de uma paralisia cerebral. “Em algum momento ele teve baixa oxigenação cerebral. A falta dos movimentos em seus membros inferiores é uma sequela dessa paralisia”, explicou.
Com a cirurgia, o médico espera que ele tenha capacidade de marcha novamente. “Ele tem condições para isso. Não como uma pessoa normal, mas ele irá conseguir pisar com a sola do pé, tendo mais independência, chegando a ser um adulto com toda dignidade”, afirmou.

Nózio permanecerá no Brasil até março deste ano. Jacsson está ao seu lado. Foi ele quem correu atrás de toda a documentação, inclusive da identidade do menino, antes jamais feita. Não é exagero dizer que o influenciador digital foi o anjo do menino. Não bastasse todo o seu empenho, ainda pretende construir uma nova casa à família do menino. À algumas pessoas isso se chama apenas ajuda. Mas o nome correto é solidariedade, no exato sentido da palavra. Ainda existem humanos preocupados com humanos.

Em tempo: a mãe de Nózio não está mais com o padrasto.


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