João, o devorador de livros

João, o devorador de livros
Por: Dilmercio Daleffe


João não sabe quantos quilômetros percorreu a pé. Desconhece quantas substâncias tóxicas já ingeriu. Invisível, deixou o “trecho” para se salvar. Cansou de sobreviver. Ele agora deseja viver. Distante do crack, busca a própria redenção através da ajuda dos freis franciscanos. Os mesmos que o acolheram na Casa de Passagem de Campo Mourão. E mesmo lutando contra um vício quase impossível de ser vencido, encontrou nos livros a sua principal saída de emergência: esperança.

Nascido e criado em Santos, litoral de São Paulo, João cresceu ao lado do pai, pescador. E por ser um profundo conhecedor do mar, João foi “convidado” a ganhar uma grana, digamos, “fácil demais”. Por volta de 1999 recebeu a proposta para colocar pasta base de cocaína em gaiolas acopladas ao fundo de navios ancorados no porto local. Trampo fácil, grana boa. Aceitou. Fez uma, duas, três vezes. Na quarta foi pego em flagrante pela guarda marítima. Preso, foi levado ao famoso Carandiru, em São Paulo. E transferido ainda em 2001, pouco antes do complexo ser demolido, em 2002.

Não é exagero afirmar que João era uma espécie de granada sem pino. Após deixar a prisão, ainda com seus 20 e poucos anos, voltou para Santos. E lá soube que seu pai havia morrido. Eram oito filhos. O pai mantinha o sustento da casa sobre um barco. E com a venda dos peixes, bancava a turma. Ainda sobrava um troco às doses etílicas. Elas foram tantas que morreu em decorrência delas. Primeiro teve uma perna amputada. Depois, falência múltipla dos órgãos. João cresceu aos pés do pai. O tinha no altar. Foi filho, amigo, confidente. Mas ao contrário dele, jamais bebeu. Talvez o único exemplo a não ser seguido. E não aceitando a sua perda, caiu na estrada, indo de encontro aos seus próprios demônios.

Então, disposto a tudo, rumou a pé até a cidade de São Paulo. Lá, acabou “acolhido” na cracolândia. Foram dez anos ali – 2010 a 2020. Viveu como a um fantasma. Uma espécie de alma penada em matéria viva, ou apenas, uma parte do que sobrou dela. Sobreviveu no relento. Se vestia como a um trapo. E banho, apenas quando se lembrava que era humano. “O crack é uma fábrica de fazer mendigos”, disse.

João bateu carteira, roubou fios de cobre. Fumou e cheirou. E, na cracolândia, colaborou com facções criminosas. Fazia favores em troca da aquisição de crack: o escambo da droga. E foi lá onde, possivelmente Deus não exista, vivenciou o lado mais cruel do submundo dos entorpecentes: a violência.
“Vi bem mais que 100 pessoas serem assassinadas e esquartejadas. Eram atravessadores de drogas. Ladrões, caguetas, devedores. O negócio não aceita desaforo. Então, numa espécie de hotel, ao lado de onde era a cracolândia, presenciei muita gente ser morta. Elas tinham os membros cortados. E depois eram colocadas em sacos de lixo. Por fim, os sacos eram espalhados por lixeiras da cidade. Eu vivenciei o inferno”, afirmou João.

E quando percebeu já colaborava ao crime. Era o que se chama no tráfico de “aviãozinho”. Ou seja, o cara que faz o leva e traz da droga. E tudo, pela droga. Acabou “adotado”. “Me tornei uma testemunha do inferno. Vi muita coisa que não queria ter visto”, disse. João, nome fictício de um homem ainda atordoado pelo passado, conseguiu deixar a cracolândia, passando a morar sob o concreto do Museu de Artes de São Paulo, o MASP. E foi ali, em 2020, dormindo na Avenida Paulista, quando ganhou o seu primeiro livro: “O Vendedor de Sonhos”. Começou a ler. Gostou. Não parou mais.

Hoje, aos 48 anos, João tenta se reinventar. Nas andanças pelas estradas teve três filhos. Por óbvio, sua degradação sepultou a relação com cada um. “Esse é um dos objetivos que eu decidi parar com o crack. Quero ser alguém para poder conviver com meus filhos”, revelou. Embora tenha pouco estudo – fez até o terceiro do fundamental - nota-se um homem bastante interessante. Ele se preocupa com a higiene, gosta de roupas limpas e, após muitos livros “devorados”, teve uma evolução significativa do vocabulário.
Tanto aprecia a leitura que, nas estradas, carregava duas malas. Uma com os poucos pertences. E a outra, repleta de livros. Eles foram recebidos em diversas cidades por onde andou. Também foram encontrados no lixo. A bem da verdade, o que é desprezado por uns, engrandece a alma de outros, até mesmo no esgoto.

Em breve, João irá a uma clínica de recuperação. E isso não é nenhuma novidade a quem já, lá esteve, por mais de 15 vezes. Mas agora as coisas estão diferentes. Será a primeira vez desejando se recuperar. Para isso ele encontrou forças nas palavras de Deus. Na esperança de conviver com os filhos. E na magia da literatura, através dos livros. “Eu morei na rua. Mas a rua não morou em mim”, resumiu!


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