Silvestre, o homem que tenta elevar as raízes de seu povo
Poeta e pesquisador, Silvestre Lissekeivo Manuel Gamba, nasceu em uma localidade chamada Oncócua, no município de Curoca, província do Cunene, em Angola. Uma região considerada a mais pobre do país, segundo dados do último Censo, realizado em 2014. “Na verdade não é, tendo em conta a riqueza cultural e de recursos naturais lá existentes”, explicou ele. De uma certa forma sobram tradições e etnias. Mas ainda falta o pão e a água.
Conta a mãe, Bernadete Micaela Tyivinda, que o menino não gostava de ir à escola. Mas tamanha foi a disciplina que Silvestre se mostrou determinado. “Meus pais sempre me orientaram a estudar. E isso seria a grande diferença em nossas vidas. E foi o que fiz”, lembrou ele. Formado em 2022 em Ciências da Educação, chegou a ministrar aulas como voluntário, por um ano em Angola. Após isso, iniciou os procedimentos para realizar o sonho de mestrado no Brasil.
Embora “ganhasse” a bolsa, para aqui chegar, as passagens tiveram que ser custeadas por ele, a família e alguns amigos. O desembarque aconteceu em São Paulo, em agosto de 2024. E no mesmo dia apanhou um ônibus com destino ao Paraná, mais especificamente às terras vermelhas de Campo Mourão.
“Em 2023 recebi um comunicado de um amigo dizendo que a Universidade Estadual do Paraná estava ofertando uma bolsa de estudos para estudantes estrangeiros. Com a notícia, o sonho de vir para o Brasil renasceu. Ao mesmo tempo ganhei a oportunidade de poder trazer o meu interesse, de espalhar para o Brasil e para o mundo, a riqueza cultural do meu povo. Que permanece desconhecida”.
Silvestre sempre teve o interesse de pesquisar os subgrupos étnicos de seu município. Sua história, cultura e tradições. Então, quando ainda fazia licenciatura resolveu escrever sobre a história dos povos de Curoca. São sete grupos: os Vatwa, os Himba, os Cavikwa(Tchavikwa), os Ndimba, os Hakavona, os Humbi e os Nhaneka (Ngambwe) , o qual faz parte.
CUROCA
De acordo com Silvestre, as comunidades do Sul de Angola, especialmente de Curoca, são agropastoris. Vivem e sobrevivem da agricultura de subsistência, apesar da seca provocada pela falta da chuva em grande escala, há anos. Também mantém criações bovinas, caprinas, suínas e ovinas. As casas da zona rural são de pau a pique. Já as das cidades, bloco e adobe – tijolos à base de terra crua.
Com uma cultura bastante diferente da brasileira, Silvestre explica que possui 36 irmãos, do mesmo pai. Sendo seis com a mãe dele. “No mesmo terreiro, meu pai mantém sete mulheres. Todos vivemos ali. É uma cultura, de certa forma, poligâmica, mas normal em meu país”, disse.
O pai, José Manuel Gamba, hoje aos 57 anos, é licenciado em sociologia. E trabalha como servidor público do município de Curoca. Já a mãe atua como zeladora no departamento de Educação do mesmo município. Silvestre relata que a família nunca passou fome. Mas garante que a missão do pai jamais foi fácil, ainda mais para alimentar seus 36 filhos.
Dados indicam que Curoca, próximo a fronteira com a Namíbia, mantém uma incidência de pobreza de 98%, em todas as suas dimensões. Lá, segundo informações, há escassez de água. Não existem possibilidades de empregos. Além do fator mais agravante: a fome. Não é exagero dizer que, de uma certa forma, Silvestre se sobressaiu à sua comunidade. É um filho que conseguiu estudar, se formar, para tentar elevar suas próprias raízes. A bem da verdade, sejam os problemas que forem, Silvestre tem muito orgulho de onde vem.
BRASIL
A vontade em conhecer o Brasil de deve pelas novelas brasileiras levadas à Angola. “No caso Xica da Silva, Malhação, entre outras. A maneira como as pessoas nelas se apresentavam, a comunicação, a interação em si nos arredores das ruas, escolas e a convivência juvenil na academia, me moldaram bastante, dando-me assim o desejo de aqui estar”.
Há um ano em Campo Mourão, Silvestre mora em um apartamento com outros seis estrangeiros – quatro de Angola e dois de Moçambique. Todos estudantes da Unespar. O aluguel é bancado pela instituição. “Eu ganho uma ajuda em dinheiro para me manter. E é com ela que almoço e tomo o café da manhã”, o mata bicho, como diz em seu país.
Mas há algo diferente no que via nas novelas brasileiras. Silvestre conta que, ao chegar a Campo Mourão, trazia no coração a expectativa de encontrar um povo extremamente acolhedor, próximo e caloroso. “Aqui percebi uma realidade um pouco diferente da que imaginava. Muitas vezes senti a distância cultural e, em algumas situações, até mesmo atitudes que me fizeram refletir sobre o racismo, algo que eu desconhecia em meu país, onde a população é majoritariamente preta. Isso não significa que fui surpreendido de forma negativa, mas sim que precisei aprender a compreender melhor as dinâmicas sociais e culturais daqui. Ainda assim, sigo acreditando que os mourãoenses são, em sua maioria, pessoas reservadas”, disse.
Silvestre deve terminar a primeira etapa do mestrado em 2026. Depois voltará as suas raízes, onde terminará a pesquisa. Após isso, defenderá a dissertação junto a Unespar. Enquanto isso não acontece, ele vai desenvolvendo seu lado poeta. Esta semana ficou em primeiro lugar na categoria composição no XXI Varal de Poesias organizado pelo Curso de Letras da Unespar. A poesia: “Cicatrizes da Cor”.
INDEPENDÊNCIA DE ANGOLA
A Independência de Angola foi acelerada, em grande parte, em função dos eventos militares e políticos que ocorreram um ano antes, em Portugal, mais especificamente da Revolução dos Cravos, em 25 de abril de 1974. O evento depôs o regime ditatorial do Estado Novo, vigente desde 1933, e que iniciou um processo que viria a terminar com a implantação de um regime democrático constitucional, com abertura política ampla na então metrópole e nas colónias.
No dia 10 de Novembro de 1975, o Alto Comissário e Governador-Geral de Angola, almirante Leonel Cardoso, em nome do Governo Português, proclamou a independência de Angola, transferindo a soberania de Portugal não para o “Povo Angolano”, de forma efetiva a proclamação foi feita as 00Horas do dia 11 de Novembro de 1975 por Dr. Antônio Agostinho Neto, tornando-se assim primeiro presidente da República de Angola.
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